Um incêndio atingiu a Chapada Diamantina entre os dias 27 e 30 de março. O incêndio em sua totalidade ocorreu em duas unidades de conservação: Parque Nacional da Chapada Diamantina e APA Marimbus Iraquara. O incêndio queimou 796 hectares (que correspondem a quase mil campos de futebol), sendo 711 hectares dentro da APA e 85 hectares dentro do Parque Nacional. O fogo foi controlado em menos de 24h, graças à rápida mobilização de brigadas voluntárias e entidades públicas.
“A participação das brigadas voluntárias foi essencial para este combate, porque no momento, o ICMBio está com um contingente muito pequeno de brigadistas contratados. Se dependesse somente do trabalho dos nossos brigadistas, esse fogo poderia alcançar maiores proporções” afirma Marcela de Marins, chefe do Parque Nacional da Chapada Diamantina. “Outro ponto importante de ressaltar é que deveríamos estar no período mais chuvoso do ano. É incomum termos um incêndio dessa magnitude nessa época “, completa Marcela.
Todos os anos, a região sofre com queimadas que afetam o Parque Nacional e outras unidades de conservação. Além de impactar a biodiversidade e comprometer o fluxo e a qualidade da água, os incêndios representam um grande risco para brigadistas voluntários e profissionais que atuam no combate.
De acordo com o ICMBio, a detecção do fogo dentro do Parque Nacional ocorreu às 12h30 do dia 27 de março e, em menos de uma hora, às 13h20, brigadistas voluntários de associações locais, bombeiros e equipes do ICMBio iniciaram o combate. O incêndio foi considerado controlado às 01h50 do dia 28 de março, dando início ao monitoramento das áreas atingidas, que se estendeu até o dia 1º de abril.
Fonte: Sistema Vellozia do ICMBio e Parque Nacional da Chapada Diamantina
Mapa ilustrativo da área queimada. Crédito: Guia Chapada Diamantina
A rápida resposta ao incidente foi fundamental para conter as chamas, que se espalharam na região conhecida como Vale das Piscinas, no limite dos municípios de Lençóis e Palmeiras. Depois, o incêndio atravessou a rodovia BR-242 e adentrou o Parque Nacional. A fumaça podia ser avistada da rodovia e o tráfego de veículos foi interrompido temporariamente. “O combate ao incêndio na APA Marimbus Iraquara e na beira da rodovia é responsabilidade dos bombeiros, que rapidamente encaminharam caminhões-pipa para conter as chamas e liberar a circulação”, explica Olivia Taylor, secretária e representante do Conselho Regional das Brigadas Voluntárias da Chapada Diamantina.
Crédito: Açony Santos
“O tempo/resposta é o primeiro protocolo de ação no controle efetivo dos Incêndios Florestais”, complementa Homero “Velho Urso” Vieira dos Santos, Presidente e representante do Conselho Regional das Brigadas Voluntárias da Chapada Diamantina.
O uso de aeronaves dispersando água em áreas em chamas também foi necessário durante a ação.
O Corpo de Bombeiros continua atuando na região até hoje, dia 03/04, na região do Morro do Pai Inácio. “Não há mais risco de aumento da área atingida, mas dentro das áreas queimadas ainda há pequenos focos que merecem atenção, por isso continuamos o trabalho com nossas equipes e aeronaves. Também trabalhamos em um incêndio em Andaraí e estamos em combate no município de Seabra”, afirma Capitão Romilson Ramos, do Corpo de Bombeiros.
Em Andaraí, houve um incêndio iniciado em uma ilha do rio Paraguassu e o fogo quase alcançou a serra. O Corpo de Bombeiros, juntamente com as brigadas voluntárias locais controlaram e extinguiram as chamas.
“Em Seabra continua, pois o fogo ainda não está 100% controlado, embora não haja mais risco de adquirir grandes proporções”, conclui o Capitão Ramos.
Nenhum atrativo turístico foi diretamente afetado pelo fogo. Nem mesmo os mais próximos do incêndio, como Morro do Pai Inácio, Morro do Camelo, Rio Mucugezinho e Poço do Diabo foram queimados próximo às áreas de visitação e seguem com suas atividades de receptivo turístico normalmente.
As estradas também não sofreram danos que atinjam a circulação de veículos.
Por isso, caso você tenha viagens marcadas para este período, não é necessário cancelar suas reservas.
O combate mobilizou o Corpo de Bombeiros, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e dez brigadas voluntárias da região. Participaram da operação as brigadas de Campos de São João, Lençóis, Riacho do Mel, Vale do Capão, Barra/Tejuco/Guiné, Palmeiras e Seabra.
Crédito: Açony Santos
O imenso território da Chapada Diamantina necessita de um cuidado coletivo.
Hoje, praticamente todas as cidades e vilas da região possuem Brigadas Voluntárias de Combate a Incêndios Florestais, que são associações da comunidade civil unidas para proteger essas áreas, sem fins lucrativos.
As brigadas, ainda que em parceria com entidades públicas de conservação ambiental, atuam de forma independente para conseguir EPIs (equipamentos de proteção individual), alimentação, transporte, entre outros recursos essenciais para suas operações.
“O combate efetivo aconteceu, primeiramente, porque é período de baixa temporada turística. Como os voluntários, em sua maioria, são guias, muitos deles estavam disponíveis para combate” comenta Açony Santos, brigadista voluntário de Lençóis.
“As brigadas, hoje, conseguem se mobilizar com muita agilidade graças à tecnologia que facilita nossa comunicação. Além disso, o uso dos sopradores tornou o combate muito mais eficiente, se comparado ao combate com uso somente de abafadores manuais e bombas de água costais. As brigadas mais antigas estão mais equipadas, após anos de trabalho intenso que envolve mobilização, editais, parcerias, apoio da sociedade civil, do trade turístico e das prefeituras municipais. Porém, é necessário captar recursos para manutenção dos equipamentos por meio de doações durante o ano todo “, completa Açony.
Crédito: Açony Santos
A Chapada Diamantina também conta com este Conselho, fundado em 2022 com o propósito de unir e fortalecer as brigadas voluntárias da região.
Atualmente, o Conselho conta com mais de 30 brigadas voluntárias, o que sinaliza claramente o crescimento e a expansão dos esforços de combate a incêndios entre as comunidades locais.
A maioria dos incêndios florestais na Chapada Diamantina tem origem em ações humanas, sejam intencionais ou acidentais. Estudos indicam que apenas os raios podem causar incêndios de forma natural na região, e não houve registros desse fenômeno nos dias do incidente.
De acordo com brigadistas, o incêndio neste período – final do mês de março e início de abril – foi bem atípico. Este período pós verão deveria ser mais úmido, porém a chuva não veio e o clima está muito quente e seco, favorecendo o aumento rápido do fogo.
Crédito: Açony Santos
“Em 20 anos eu nunca tinha visto o clima tão seco neste período. Enquanto a chuva não chegar, estaremos todos alertas”, diz Marcelo Cardoso, brigadista voluntário de Lençóis.
É fundamental investir na capacidade de detecção rápida e na resposta imediata dos incêndios ainda em seus estágios iniciais. Com pessoal treinado e equipamentos adequados, é possível impedir que pequenos incêndios se transformem em grandes desastres. Para isso, alguns recursos são necessários:
Postos de observação:
Plantão de monitores em locais elevados para observar a região ajuda a identificar sinais de fogo em estágios iniciais.
Rondas de patrulha:
Patrulhas regulares são métodos comprovados para detectar incêndios cedo e prevenir sua propagação.
Uso de drones e câmeras remotas:
Estas ferramentas oferecem uma visão aérea e permitem o monitoramento de áreas extensas de maneira eficiente.
Prevenção de incêndios criminosos:
O monitoramento constante, as rondas e o uso de drones e câmeras também desempenham um papel crucial na prevenção, desestimulando e impedindo que pessoas iniciem incêndios intencionalmente.
“Enquanto brigadistas voluntários, hoje nossas principais formas de monitoramento são os ‘miranteiros’ e o uso de drones. Durante os períodos de seca, diariamente utilizamos esse recurso para visualizar qualquer sinal de fumaça, acionar o ICMBio e as brigadas mais próximas para o combate rápido. Inclusive é muito mais barato investir em monitoramento e agir sobre um incêndio pequeno do que atuar diretamente em um fogo imenso que requer aeronaves, caminhões pipa, um enorme contingente humano e uma operação complexa, cara e arriscada. Por isso é fundamental que as brigadas voluntárias estejam devidamente equipadas”, comenta Marcelo Cardoso.
Crédito: Marcelo Cardoso, brigadista voluntário de Lençóis.
Investigar as causas dos incêndios é essencial para responsabilizar eventuais infratores e prevenir novos episódios. Paralelamente, a educação ambiental é fundamental para conscientizar as comunidades locais. “O monitoramento não é apenas uma medida preventiva, mas também uma forma de educação ambiental. Ao treinar brigadistas para vigiar áreas sensíveis, eles também se tornam educadores comunitários”, destaca Olivia Taylor.
Preservar um patrimônio natural como a Chapada Diamantina é uma responsabilidade coletiva. Além das ações dos órgãos de conservação, a participação ativa da comunidade e dos turistas é essencial.
Campanhas de conscientização têm sido promovidas para reforçar esse compromisso. Caso presencie algum incêndio ou atividade irregular na região, denuncie:
Instituto Chico Mendes (24h): 83 99128-7521
Bombeiros (24h) : 193
Por Thais de Albuquerque – Redação Flora.